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Parte da Crónica: Diletâncias

2026 - Odisseia no ciberespaço

Escrito por: Pedro Araújo 278

Esse mesmo Odisseu, paradigma antropológico de toda a ética e política possíveis, foi deitado no divã do psicanalista, atormentado com o seu passado. A flor de lótus é hoje Prozac.

2026 - Odisseia no ciberespaço

Algures no tempo, deparei-me com esta citação do escritor italiano Italo Calvino: “Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”.

Tornaram-se clássicos ao conquistar a intemporalidade. Neles escutam-se vozes antigas de longínquos antepassados, falando-nos de modos de ser e viver de outra forma ocultados pelo ruidoso e atarefado quotidiano contemporâneo. O reconhecimento de outras possibilidades humanas engrandece-nos. 

A Odisseia de Nolan calou essas vozes. Nunca se situou efetivamente na Grécia, não saiu dos EUA, geografia social e humana que é o seu referencial ético-ontológico. O filme apequenou uma narrativa grandiosa sobrepondo-a anacronicamente a referências mais ou menos explícitas à política actual através de uma constante expiação do herói Odisseu que surge como esse Ocidente que afinal é o “povo do mar” - os temidos invasores que chegam nas suas embarcações e devastam somos nós, o colapso civilizacional é auto-induzido. 

Esse mesmo Odisseu, paradigma antropológico de toda a ética e política possíveis, foi deitado no divã do psicanalista, atormentado com o seu passado. A flor de lótus é hoje Prozac. 

O filme alcançou a proeza de reduzir a guerra de Tróia a uma mesquinha disputa por rotas comerciais. Aquiles queria afinal cobrar taxas alfandegárias. Não tenho dúvidas de que as grandes forças mitológicas da actualidade operam nas Finanças. 

Trata-se de um filme que desmistifica no sentido de remover o mito, o que está alto, não no sentido do esclarecimento, dessacraliza as personagens, despoja-as da sua riqueza, da sua universalidade - por exemplo, na ocultação do erotismo latente nas relações de Odisseu com Calipso e Circe.

A obra cedeu à pressão da função moralizadora da arte, onde tudo é política. Sendo tudo política, afirmar que tudo é política, é política. E para que haja política são necessárias posições divergentes; assim, é possível a existência de uma outra doutrina que afirma nem tudo ser política, logo uma contradição. Portanto, é possível afirmar que nem tudo é política sem fazer política. Tal é o caso da Odisseia - a grega, entenda-se -  em que alguma coisa é política, outra paixão, outra húbris, outra apenas o Destino urdido pelo capricho dos Deuses.

É nesta configuração de mundo onde o humano se confronta com forças que não pode controlar, tem de sofrer, o protesto é inútil e possivelmente fatal - as estruturas que o contêm não são construções sociais, mas forças mitológicas. 

Sentar uma obra no tribunal da ética é quebrar o pacto que nos permite ver para além do véu dos pre-conceitos éticos. A arte é esse fórum de intransigente liberdade. 

O debate em torno desta obra foi inevitavelmente etnocêntrico, e assim tem sido desde que se instalou na praça pública um regime binário de pensamento. Alguns críticos não perdoaram um casting refém do identitarismo e as incongruências históricas dos adereços ou do barco viking - parecendo pouco incomodados com a fluência dos seus tripulantes com a língua falada no Kentucky, sendo que a única referência ao grego é na voz de um decano prostrado perante uma aldeia pilhada pelo exército de Odisseu; outros congratularam-se com a diversidade do casting. 

Há uns dias, o Frederico Lourenço, tradutor da obra, alertou para o facto de Odisseu - não o Matt Damon - ser retratado no texto original ora com pele branca, ora com pele negra. Fica assim esvaziada a polémica. 

É uma posição legítima exigir que uma peça de época seja absolutamente verosímil, mas creio que tal postura não responde ao chamamento do palco, do faz-de-conta que as crianças aprendem intuitivamente, como se o fingimento fosse um imperativo natural: é na plasticidade que reside a força da obra.

Comentários (5)

Veronika
A forma de expressão do autor é incrível! As metáforas, as alusões e os símiles são inspirados.
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Patrícia
Um artigo inteligente, com sentido de humor refinado.
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Pedro
Muito obrigado pelo gentil comentário.
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Félix
Todos sabemos que o cinema toma sempre algumas liberdades criativas nas adaptações e tem que cortar grande parte para caber em 3 horas de filme. Mas escolher uma obra clássica e tirá-la tanto do contexto como fez o Nolan já vai muito além disso. É adultério. Transformar Odisseu num guerreiro atormentado de culpa não estava, com toda a certeza, na mente de Homero. É inverter a narrativa.
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Pedro
Este filme foi uma tentativa muito forçada para soar contemporâneo. O homem branco a penitenciar-se :)
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